quarta-feira, 24 de abril de 2013
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
OSCAR NIEMEYER E LEONARDO BOFF.
COMUNISMO E ÉTICA.
Não
tive muitos encontros com Oscar Niemeyer. Mas os que tive foram longos e
densos. Que falaria um arquiteto com um teólogo senão sobre Deus, sobre
religião, sobre a injustiça dos pobres e sobre o sentido da vida?
Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus.
Invejava-me que, me tendo por inteligente (na opinião dele) ainda assim
acreditava em Deus, coisa que ele não conseguia. Mas eu o tranquilizava
ao dizer: o importante não é crer ou não crer em Deus. Mas viver com
ética, amor, solidariedade e compaixão pelos que mais sofrem. Pois, na
tarde da vida, o que conta mesmo são tais coisas. E nesse ponto ele
estava muito bem colocado. Seu olhar se perdia ao longe, com leve
brilho.
Impressionou-se sobremaneira, certa feita, quando lhe
disse a frase de um teólogo medieval: "Se Deus existe como as coisas
existem, então Deus não existe”. E ele retrucou: "mas que significa
isso?” Eu respondi: "Deus não é um objeto que pode ser encontrado por
ai; se assim fosse, ele seria uma parte do mundo e não Deus”. Mas então,
perguntou ele: "que raio é esse Deus?” E eu, quase sussurrando,
disse-lhe: "É uma espécie de Energia poderosa e amorosa que cria as
condições para que as coisas possam existir; é mais ou menos como o
olho: ele vê tudo mas não pode ver a si mesmo; ou como o pensamento: a
força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. E ele ficou
pensativo. Mas continuou: "a teologia cristã diz isso?” Eu respondi:
"diz mas tem vergonha de dizê-lo, porque então deveria antes calar que
falar; e vive falando, especialmente os Papas”. Mas consolei-o com uma
frase atribuída a Jorge Luis Borges, o grande argentino:”A teologia é
uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”.
Achou muita graça. Mais graça achou com uma bela trouvaille de um gari
do Rio, o famoso "Gari Sorriso: "Deus é o vento e a lua; é a dinâmica do
crescer; é aplaudir quem sobe e aparar quem desce”. Desconfio que Oscar
não teria dificuldade de aceitar esse Deus tão humano e tão próximo a
nós.
Mas sorriu com suavidade. E eu aproveitei para dizer: "Não
é a mesma coisa com sua arquitetura? Nela tudo é bonito e simples, não
porque é racional mas porque tudo é inventado e fruto da imaginação”.
Nisso ele concordou adiantando que na arquitetura se inspira mais lendo
poesia, romance e ficção do que se entregando a elucubrações
intelectuais. E eu ponderei: "na religião é mais ou menos a mesma coisa:
a grandeza da religião é a fantasia, a capacidade utópica de projetar
reinos de justiça e céus de felicidade. E grande pensadores modernos da
religião como Bloch, Goldman, Durkheim, Rubem Alves e outros não dizem
outra coisa: o nosso equívoco foi colocar a religião na razão quando o
seu nicho natural se encontra no imaginário e no princípio esperança. Ai
ela mostra a sua verdade. E nos pode inspirar um sentido de vida.”
Para mim a grandeza de Oscar Niemeyer não reside apenas na sua
genialidade, reconhecida e louvada no mundo inteiro. Mas na sua
concepção da vida e da profundidade de seu comunismo. Para ele "a vida é
um sopro”, leve e passageiro. Mas um sopro vivido com plena inteireza.
Antes de mais nada, a vida para ele não era puro desfrute, mas
criatividade e trabalho. Trabalhou até o fim, como Picazzo, produzindo
mais de 600 obras. Mas como era inteiro, cultivava as artes, a
literatura e as ciências. Ultimamente se pôs a estudar cosmologia e
física quântica. Enchia-se de admiração e de espanto diante da grandeur
do universo.
Mas mais que tudo cultivou a amizade, a
solidariedade e a benquerença para com todos. "O importante não é a
arquitetura” repetia muitas vezes, "o importante é a vida”. Mas não
qualquer vida; a vida vivida na busca da transformação necessária que
supere as injustiças contra os pobres, que melhore esse mundo perverso,
vida que se traduza em solidariedade e amizade. No JB de 21/04/2007
confessou: ”O fundamental é reconhecer que a vida é injusta e só de mãos
dadas, como irmãos e irmãs, podemos vive-la melhor”.
Seu
comunismo está muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido
nos Atos dos Apóstolos nos capítulos 2 e 4. Ai se diz que "os cristãos
colocavam tudo em comum e que não havia pobres entre eles”. Portanto,
não era um comunismo ideológico, mas ético e humanitário: compartilhar,
viver com sobriedade, como sempre viveu, despojar-se do dinheiro e
ajudar a quem precisasse. Tudo deveria ser comum. Perguntado por um
jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu
coerentemente: "aceitaria se fosse para todo mundo; não quero a
imortalidade só para mim”.
Um fato ficou-me inesquecível.
Ocorreu nos inícios dos anos 80 do século passado. Estando Oscar em
Petrópolis, me convidou para almoçar com ele. Eu havia chegado naquele
dia de Cuba, onde, com Frei Betto, durante anos dialogávamos com os
vários escalões do governo (sempre vigiados pelo SNI), a pedido de Fidel
Castro, para ver se os tirávamos da concepção dogmática e rígida do
marxismo soviético. Eram tempos tranquilos em Cuba que, com o apoio da
União Soviética, podia levar avante seus esplêndidos projetos de saúde,
de educação e de cultura. Contei que, por todos os lados que tinha ido
em Cuba, nunca encontrei favelas mas uma pobreza digna e operosa. Contei
mil coisas de Cuba que, segundo frei Betto, na época era "uma Bahia que
deu certo”. Seus olhos brilhavam. Quase não comia. Enchia-se de
entusiasmo ao ver que, em algum lugar do mundo, seu sonho de comunismo
poderia, pelo menos em parte, ganhar corpo e ser bom para as maiorias.
Qual não foi o meu espanto quando, dois dias após, apareceu na Folha de
São Paulo, um artigo dele com um belo desenho de três montanhas, com
uma cruz em cima. Em certa altura dizia: "Descendo a serra de Petrópolis
ao Rio, eu que sou ateu, rezava para o Deus de Frei Boff para que
aquela situação do povo cubano pudesse um dia se realizar no Brasil”.
Essa era a generosidade cálida, suave e radicalmente humana de Oscar
Niemeyer.
Guardo uma memória perene dele. Adquiri de Darcy
Ribeiro, de quem Oscar era amigo-irmão, uma pequeno apartamento no
bairro do Alto da Boa-Vista, no Vale Encantando. De lá se avista toda a
Barra da Tijuca até o fim do Recreio dos Bandeirantes. Oscar reformou
aquele apartamento para o seu amigo, de tal forma que de qualquer lugar
que estivesse, Darcy (que era pequeno de estatura), pudesse ver sempre o
mar. Fez um estrado de uns 50 centímetros de altura E como não podia
deixar de ser, com uma bela curva de canto, qual onda do mar ou corpo da
mulher amada. Aí me recolho quando quero escrever e meditar um pouco,
pois um teólogo deve cuidar também de salvar a sua alma.
Por
duas vezes se ofereceu para fazer uma maquete de igrejinha para o sítio
onde moro em Araras em Petrópolis. Relutei, pois considerava injusto
valorizar minha propriedade com uma peça de um gênio como Oscar.
Finalmente, Deus não está nem no céu nem na terra, está lá onde as
portas da casa estão abertas.
A vida não está destinada a
desaparecer na morte, mas a se transfigurar alquimicamente através da
morte. Oscar Niemeyer apenas passou para o outro lado da vida, para o
lado invisível. Mas o invisível faz parte do visível. Por isso ele não
está ausente, mas está presente, apenas invisível. Mas sempre com a
mesma doçura, suavidade, amizade, solidariedade e amorosidade que
permanentemente o caracterizou. E de lá onde estiver, estará
fantasiando, projetando e criando mundos belos, curvos e cheios de
leveza.
"Texto escrito por Leonardo Boff em 7.12.2012 descrevendo um encontro com Oscar Niemayer."
VALENTIM SANTOS.
HISTORIADOR E SOCIÓLOGO.
sábado, 22 de dezembro de 2012
A ÁGUA NAS RELIGIÕES.
A ÁGUA
NAS RELIGIÕES.
A água é considerada como
purificadora na maioria das religiões. Ela é símbolo de pureza e fonte de vida,
tendo por isso um papel central em varias religiões como o Hinduísmo,
Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Xintoísmo e Wicca. A utilização de água
pelas religiões e uma pratica comum, mas cada religião tem as suas
particularidades diferentes no que toca á utilização da água. Os batismos nas igrejas cristãs são
praticados com água, que simboliza o nascimento de um novo ser. Como fonte de
vida representa o renascimento. Água lava o corpo e, conseqüentemente,
purifica-o, e estas qualidades conferem-lhe um simbolismo, ou mesmo um estudo
sagrado. A água é, portanto, um elemento chave em cerimônia e rituais
religiosos.
CRISTIANISMO. Na
religião cristã água está relacionada ao batismo, o símbolo maior do nascimento
do cristão. Ato público de fé para com Deus, sinal de boas vindas á igreja
católica. O ato de batismo e o momento em que uma pessoa é parcial ou
totalmente imersa em água sobre sua cabeça. Este sacramento tem as sua origem
na Bíblia, onde registra o batismo de Jesus Cristo, por João Batista nas
margens do Rio Jordão. No batismo, a
água simboliza a purificação, a rejeição do pecado original. Por outro lado, no
Novo Testamento, a água e como uma vida, representa o espírito de Deus, isto é,
água da vida para o novo cristão. Simboliza o nascimento de uma vida eterna, na
fé cristã.
JUDAÍSMO. Na
religião Judaica, os Judeus usam a água para lavagens rituais com o objetivo de
restaurar ou manter um estado de pureza. A lavagem das mãos antes e depois das
refeições é um ato sagrado é obrigatório para os Judeus. Os banhos rituais, ou
como são conhecidos no Judaísmo Mikveh, que hoje deixaram de ser importante nas
comunidades judias, permanecem, no entanto, obrigatório para os indivíduos
convertidos. Os homens realizam o Mikveh geralmente nas 6º sextas feiras, ou
antes, de grandes celebrações, ao passo que as mulheres fazem-no antes do
casamento, ou depois do nascimento de um filho, ou antes, da primeira
menstruação.
No Primeiro livro da Bíblia, Gêneses, conta a
história da Criação e do Dilúvio. Para castigar os homens pela suas
desobediências para com Deus, o senhor enviou uma chuva torrencial que duraram
quarentas dias e quarentas noites. Mas
antes Deus fez Noé construir uma Arca, onde colocou um par de cada animal
existente na terra na arca, juntamente com a família de Noé. O Dilúvio lavou os
pecados do mundo, fez surgir o inicio de uma civilização livre dos pecados
cometidos pelo homem.
HINDUÍSMO.
Para os Hindus, a água simboliza o poder da purificação espiritual, sendo a
água um ato de limpeza matinal obrigatório para todos. Os seus templos se
situam perto de uma fonte de água, e Hindus ou membros têm de se banhar antes
de entraram no templo. Seus lugares de peregrinação encontram-se nas margens de
um rio, sendo que estes locais geralmente são de confluência de dois ou mais
rios, que são considerados particulares ou sagrados para o povo Hindu.
Os sete rios sagrados, segundo as tradições
do Hinduísmo são o Rio Ganges,
localizado na Índia, o Rio Kaveri
localizado no Golfo de Bengala, na parte nordeste do Oceano Indico. O Rio
Godavari, é um rio que corre no
centro da India e um dos mais importantes do país. Tem origem próximo de Trimbak
em Maharastra. Segue para leste por Maharastra e Andhra Pradesh e desagua na Baía
de Bengala. Rio Normada,
este rio esta localizado na Índia. Nasce no alto das montanhas Mandhata. Um dos
sete lugares sagrados de peregrinação na Índia Suas pedras são
considerada sagrada contém marcações simbólicas das marcas na testa do deus
Shiva. O Rio Saravasti, e o nome de
um rio extinto localizado na Índia, no vale do rio Indra, onde se desenvolveu a
civilização Sarasvat-Sindhu, por volta 3000 a. C. O rio foi descoberto por
satélite no final do século XX. O Sindhu e considerado como o sétimo rio
sagrada do povo Hindu. Localizado na
região de Punjab no noroeste do Paquistão.
O Rio Yamuna. É um dos principais rios do norte da Índia medindo 1.370
Km de comprimento. É um dos principais afluentes do rio
Gange.
De acordo com esta religião, os que se banham no
rio Ganges. Ou deixam parte de seu corpo, como cabelos, cinzas, etc, na margem
esquerda deste rio atingirão o Svarga, conhecido como o paraíso de Indra, deus das
Tempestades.
Os
rituais fúnebres que acontecem nas águas do rio Ganges; os familiares do morto
vertem água sobre a pira fúnebre em chamas para que a alma do referido morto,
não posa escapar e regressar á Terra como um fantasma. Quando o fogo atinge o
crânio do corpo, os familiares banham-se nas águas e vão para casa. As cinzas
são recolhidas três dias depois da cremação, e vários dias mais tarde são
deitados nas águas do rio Ganges, considerado sagrado.
No Hinduísmo, encontrarmos um mito sobre o
Dilúvio, presente em algumas escrituras sagradas dos Hindus. Que conta a
história de como Manu, o primeiro homem, que foi salvo de uma inundação por um
peixe, considerado Brama ou pronunciado
Brahma, é o primeiro deus da Trimurti, a trindade do hinduísmo que forma junto
com Vixnu e Shiva, o trios de deus hindus. Também considerado pelos hindus a
representação da força criadora ativa no universo.
O
ISLAMISMO. Para os
Muçulmanos, a água serve, mais que nada, para a purificação. Existem três tipos
de abluções, ou lavagens praticados pelos Islâmicos. A primeira e mais
importante, pois envolve a lavagem integral do corpo. E obrigatória depois das
relações sexuais e recomendadas antes das orações nas 6º feiras e antes de
tocar o Carão. A segunda ocorre antes de cada uma das cinco orações diárias,
tendo os membros de se banhar a cabeça, lavar as mãos, as antebraços e os pés. Em todas as mesquitas existem fontes de água,
normalmente uma delas e exclusiva para os banhos ou ablução. Por fim, o último
banho diz respeito ás situações em que a água torna-se escassas, nestes casos
os Muçulmanos utilizam areia para suas lavagem.
O BUDISMO.
Para o budista o simbolismo e os rituais da água não fazem sentido, porque
procuram a iluminação espiritual que advém de ver a realidade da irrealidade.
No entanto, a água está presente nos funerais Budistas, sendo vertida sobre uma
taça que transborda perante os corpos, praticada pelos monges que recitam uma
oração denominada de Oração das águas. “Como as chuvas enchem os rios e
transbordam para os oceanos, também o que é oferecido aqui possa chegar aos que
partiram”.
A água em regra, e um elemento fundamental
tanto para o ser humano, quanto para as religiões, onde são utilizadas pelos
seus seguidores, nas praticas de oferendas. Nas religiões Africanas Ocidentais
como o, Candomblé, e a Umbanda mista, são usadas nos rituais e oferendas as
divindades que representa a natureza como, Iemanjá a rainha dos mares, de todas
as águas do mundo, seja dos rios, seja do mar. Seu nome deriva da expressão
YÉYÉ OMÓ EJÁ, que significa mãe cujos filhos são peixes. Oxossi deus das cachoeiras, Ogum deus dos oceanos, Iara a mãe de todas as águas. Suas oferendas são realizadas sempre com águas
e colocadas nas águas como forma de agradar seus deuses,
Nas religiões neopagãs, como Xintoísmo e na
Wicca, também existe a crença na existência de cinco elementos constituintes do
Universo, sendo eles: o Fogo, a Água e a Terra e o Akasha que e na verdade e a
manifestação da energia divina proveniente das águas. A água é usada em quase
todos os rituais de limpeza dos seus praticantes.
Nas religiões, o uso ritual da água segue um ritmo
de envolvimento crescente: vai desde a simples aspersão, até a total imersão.
Outro ritmo a considerar é o da interioridade, que vai da sensibilidade
exterior aquela interior desse tipo notório.
Para se livrarem do ciclo de reencarnações,
os Hindus mergulham no rio Ganges, Yamuna e Godavári, considerados sagrados. Já
os Judeus purificam-se através do mikvá, que e um banho ritual. Os Muçulmanos
lavam os pés, os braços e o rosto antes das orações.
Na Gália céltica centenas de lagos e fontes
eram consideradas miraculosas, beber a sua água assegurava saúde, fertilidade e
boa sorte.
Quando João Baptista voltou do deserto
anunciando o tempo messiânico, usou o banho como sinal público de conversão
(ef.Mc. 1,4-5). Jesus de Nazaré ordenou
este rito quando enviou seus apóstolos a pregarem a boa notícia do reino de
Deus. (ef.Mt. 28,19).
VALENTIM SANTOSProfessor,Historiador e Sociólogo
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
ACARAPE, A REDENÇÃO DA LIBERDADE.
Mas
o grande e definitivo momento não tardaria para acontecer, no dia 1º de janeiro
de 1883, a vila de Acarape, hoje município de Redenção no Interior cearense,
tornaria a ser a primeira cidade do Império do Brasil a alforriar todos seus
escravos de uma só vez.
Nascida
com o nome de Acarape, palavra indígena tupy etimologicamente formado por dois
nomes ACARÁ = peixe; PÉ = caminho das graças. Situada às margens do rio Pacoti,
localizada no pé da serra, esse pequeno povoado logo se tornaria um núcleo com
a criação de um posto de administração policial em 18 de março de 1842, depois
de 26 anos tornar-se-ia Vila de Acarape, pelo Presidente da Província Francisco
Inácio Marcondes Homem de Melo, em 28 de dezembro de 1868, que sancionou e
promulgou a lei de nº 1.255, tornando Acarape município livre e independente de
Baturité, ao qual era subordinado.
No
dia 21 de agosto de 1871, às 11h foi instalada a primeira Câmera Municipal da
cidade de Acarape, que contava com 07 vereadores que foram eleitos com 150
votos. A Câmera era composta da seguinte maneira:
Presidente
Cel.
Simeão Teles de Meneses Jurumenha
Vereadores
José
Joaquim de Araújo
Félix
Nogueira de Sousa
Francisco
Ernesto de Oliveira
Honorato
Gomes da Silva
Suplentes
José
Martins Maia
Antonio
Ferreira dos Reis
Substituição
Francisco
Ferreira da Silva
Cassiano
Antônio de Sousa
A
chama ardente do movimento abolicionista na capital cearense alimentava os
filhos de Acarape, que nutria a mesma idéia por liberdade dos cativos. Em 8 de
dezembro de 1882, era criada a Sociedade Redentora Acarapense e no dia 14 do
mesmo mês, foi criada também a Sociedade Libertadora Artística Acarapense,
presidida pelo Sr. Gil Ferreira Gomes que havia participado de uma reunião em
Fortaleza do movimento abolicionista, já que era escrivão de rendas gerais do
município. Chegando em Acarape, decidiu fazer algo em prol dos escravos,
juntamente com Joaquim Agostinho Fraga e Antônio da Silva Matos, que aderiram a
ideia, juntamente com o Sr. Semeão Teles de Meneses e a Sra. Maria Emiliana
Cavalcante, que juntos com o próprio alforriaram três escravos que possuíam.
Acarape,
a partir deste momento foi destinada pelos seus filhos a fincar no solo da
pátria a semente que germinaria um sonho de liberdade plantada pelos
abolicionistas e deste momento em diante os acarapenses transformariam a cidade
no primeiro paraíso da liberdade do país. Os cearenses davam os primeiros
passos para sua emancipação.
A
alforria dos seus escravos tornou-se fato consumado em 1º de janeiro de 1883.
Uma grande festa cívica marcou esta data, com a presença de todos os
abolicionistas da capital cearense, entre eles, Antônio Bezerra, Justiniano de
Serpa, General Tibúrcio, João Cordeiro, Conselheiro José Liberato Barroso,
Maria Tomásia, entre outros convidados: José do Patrocínio, “O Tigre da
Abolição”, Raimundo Teodorico, Presidente do Clube dos Libertos, João Fernandes
Clapp, Presidente do Clube dos Libertos de Niterói, Dr. Almino Afonso, da
Sociedade Abolicionista do Rio de Janeiro, Teles Marrocos, do Jornal O
Libertador, Felipe Sampaio, Deputado Abolicionista, Martinho Rodrigues e
Presidentes das Libertadoras de Recife, Manaus e Rio de Janeiro. Estavam
presentes toda a população da cidade, sítios e localidades vizinhas na praça da
matriz, que toda enfeitada com palmeiras, flores e bandeiras de várias cores
decoravam esse momento solene. A sessão teve inicio com o hino da libertação,
cantado por todos os presentes.
No
seu discurso, José do Patrocínio fez a seguinte afirmação:
“Para se conhecer a grandeza
desta festa, basta vermos a cabeceira da mesa do parlamento, representada pelo
Exmo. Sr. Conselheiro Liberato Barroso, o parlamento é a ideia. A sua direita
está a espada vencedora, o Exercito Brasileiro representado na pessoa do
General Antônio Tibúrcio Ferreira de Sousa. A esquerda, a Igreja Católica, que
convence das verdades eternas, representado condignamente pelo Revmo. Padre
Silveira Guerra. Portanto senhores, temos aqui três coisas distintas: a ideia
que ilumina, a espada que vence e o sacerdote que convence”. Finaliza o Tigre
da abolição. Alimo Afonso discursa solenemente nesta ocasião: “Nenhum homem
terá direito de propriedade sobre o outro”. Antônio Bezerra diz: “As ideias
transformam mais que as armas”, finaliza com estas palavras seu discurso. O
Deputado Provincial Justiniano de Serpa inicia seu discurso com esta citação:
”Estamos em plena Canaã da liberdade...”, mas o discurso mais
emocionante foi de Francisco Benevides de Vasconcelos com a seguinte frase: “A maior vergonha da minha vida foi ser
senhor de escravo”.
Este
exemplo fizera o país inteiro voltar seus olhos para esta pequena vila, que num
gesto pioneiro de amor e civismo, quebrara os grilhões de seus escravos e se
tornara o “Berço das Auroras”, e o “Rosal da Liberdade”, denominado pelo
jornalista e filho ilustre, Perboyre e
Silva. Acarape iniciava um novo dia no Ceará, cujo término aconteceria na
última hora da noite de 25 de março de 1884.
O
ULTIMO ESCRAVO VENDIDO NA VILA DE ACARAPE:
Nome do Escravo
|
Vicente Mulato
|
Idade
|
48 anos, casado com mulher
livre
|
Comprador
|
Simeão Teles de Meneses
Jurumenha
|
Vendedor
|
João Capistrano Pereira
|
Data
|
08 de junho de 1881
|
Local da Venda
|
Cala Boca
|
Valor Pago
|
01 conto de réis
|
Testemunhas
|
Zacarias de Oliveira
Castro
Vicente Sousa de Oliveira
|
Tabelião
|
Henrique Pinheiro de
Oliveira
|
Procurador
|
Manuel Fernandes de Araújo
|
O
referido escravo foi alforriado em 14 de dezembro de 1882, pelo seu
proprietário Semeão Teles de Meneses, por ocasião da fundação da Sociedade
Libertadora Artística Acarapense.
No
dia 23 de janeiro de 1883, a Câmera Municipal de Acarape, envia um telegrama ao
Imperador do Brasil, D. Pedro II comunicando oficialmente a extinção da
escravatura nas terras de Acarape. Em 11 de abril do mesmo ano, recebe do
imperador um telegrama parabenizando-o pelo acontecimento, pelo gesto de
heroísmo dos seus filhos acarapenses, doando uma pequena contribuição num gesto
confortante, auspicioso e simpático.
Eis
o teor do telegrama:
DA:
CASA IMPERIAL DO BRASIL
À:
SOCIEDADE CEARENSE LIBERTADORA
RIO DE
JANEIRO, 11 DE ABRIL DE 1883.
De
ordem de S.M. o imperador do Brasil remete a V.Exma. a inclusa a 1ª via de uma
letra no valor de 1:000$000 (um conto de réis), sacado no Banco do Brasil,
contra a Srs. Pereira Carneiro & CIA, de Pernambuco a fim de que V.Exma. se
digne de mandar entregar o referido e respectivo produto à Sociedade Cearense
Libertadora, como donativo que o mesmo Augusto Senhor lhe fez, para auxiliar na
alforria de escravos no Município de Acarape, desta Província. Deus guarde esta
terra e todos os seus filhos.
Barão
de Nogueira da Gama.
Em
17 de Agosto de 1889, um ano depois da libertação dos escravos no país, a vila
de Acarape foi elevada a cidade pela lei de nº 2.167. Por gesto nobre, ela
recebeu o nome heróico de “REDENÇÃO” em virtude do ato de humildade, humanidade
e patriotismo dos seus filhos ao movimento abolicionista cearense, que foi o
primeiro entre todos os movimentos do Brasil a conquistar a façanha de abolir
os escravos na primeira cidade cearense.
Hoje a cidade de Redenção tem uma população
de 26.415 habitantes (senso 2010), uma
área total de 550km2, distante de Fortaleza 64km. Tem como pontos
turísticos: o Museu dos Escravos, o Açude Acarape do Meio, um dos reservatórios
do sistema Acarape, que abastece a cidade de Fortaleza, e a Estátua da
Liberdade, monumento em homenagem à libertação dos escravos do Ceará.
Valentim Santos.
Professor, Historiador e Sociólogo.
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